Uma só palavra
O Natal tinha deixado de existir para Afonso desde a triste notícia que a mãe não ía voltar mais. Tinha adoecido e piorado nos corredores frios dos hospitais onde a vida corre ao som de gemidos, pedidos e silêncios perdidos... num só instante.
Pedir ao pai, estava fora de questão... seria uma verdadeira tortura trazer a árvore da dispensa, cuidadosamente guardada todos os anos no dia dos Reis, desembrulhar as quarenta e oito bolas de vidro em tons de dourado e azul que a mãe fazia questão de pendurar meticulosamente no pinheiro sem deixar nenhum buraco de árvore à vista. “O vazio, ainda que numa árvore, é como viver sem família”, dizia todos os anos quando a impaciência do pai invadia a sala e ardia mais depressa que a lenha trazida dos fins de semana no Bombarral.
Afonso lembrava esse ritual como o mais especial dos 365 dias passados naquela mesma casa, a sua desde que nascera. E desde que a sua mãe partira, Afonso tinha escrito e descrito esse momento, os cheiros, as pessoas, os sítios de cada coisa, as músicas ouvidas e cantadas pela mãe enquanto enfeitava a mesa de Natal, os jogos entre primos que pareciam não ter fim, tal era a batota de cada exímio jogador... escrevia tudo... até os presentes da tia Vicenta que teimava nos bibelots e nas meias que já ninguém usava desde o fim do século, com anotações ao lado das vinganças que iria fazer a velha senhora pagar no Natal seguinte... escrevia o seu passado para que nunca se esquecesse de nenhum pormenor e para que os seus filhos pudessem viver a quadra dessa maneira: cheia, partilhada, viva.
Tinha jurado a si mesmo que quando fosse homem já feito, com uma família sua, nada iria ser esquecido... nem as nozes de chocolate que a mãe nos últimos anos não tinha tido forças para fazer e que ele tinha chegado a cobrar como o seu doce predilecto... “Odeio-te!” tinha dito quando ao chegar do seu último dia de aulas, à mãe, de saída para mais uma venda de Natal. “Odeio-te!” tinha dito com lágrimas de raiva por saber que o seu momento de puro delambe e gulodice seriam duas míseras fatias de pão barradas com marmelada. “Odeio-te!” tinha dito quando bateu com a porta do quarto, e esqueceu essa palavra quando arranjou nova ocupação bem própria da época festiva: a vítima das partidas do clã inventado à pressão entre primos dois anos antes. Naquele ano seria quem? A velha Vicenta era uma chatice... que a surdez era de tal maneira avançada que nem a sirene de um farol demovia a senhora... restavam os pais, com castigo garantido, os tios, com castigo redobrado, e o Tio Tomás.. que todos os anos tentava enganá-los ao vestir-se de Pai Natal, mas certo de que a sua barba ruiva passaria muito bem pelo dono e senhor da Lapónia. Exclusão de partes feita, e o alvo seria o senhor. E tudo podia ter corrido às mil maravilhas, não fosse a mãe ter-se sentido mal e a meio da noite, com os presentes ainda por abrir, ter ido para o hospital, para não voltar.
O seu melhor e o seu pior Natal... e de um momento para o outro, tinha deixado de o ter, como acontecera tantas vezes aos seus castelos de areia dos verões em São Martinho... tinha deixado o Natal escorregar-lhe por entre os dedos, levando com ele as memórias de menino feliz... do jantar mais esperado do ano em que a música e as vozes da família enchiam a casa e fundiam-se com o cheiro dos fritos e dos doces que pareciam não acabar até à Primavera seguinte... levando com ele as trocas de presentes e guerras entre primos pelo melhor canto perto da árvore... levando com ele a única pessoa que nunca poderia levar, a mãe.
Dessa vez não chorou. Preferiu guardar para si... para quando fosse ao quarto da mãe apoderar-se de tudo o que lhe trouxesse a imagem de quem pendurava as bolas douradas e azuis com o sorriso de que o melhor dia do ano estava perto e seria vivido ali... no meio daquela família. Preferiu guardar para depois... para quando o pai não visse e não apontasse um dedo porque os homens não choram. Preferiu guardar para sempre... na esperança de ver entrar pela porta da velha casa a mãe, na sua calma sorridente e de brilho nos olhos... ao entrar no seu pequeno mundo onde todos estavam protegidos.
Afonso já não vivia o Natal, nem abraçava o pai quando abria o presente. Limitava-se a ir até à janela e enquanto soluçava baixinho, para que só a mãe pudesse ouvi-lo, pensava; “Natal... eu só queria acreditar.”
MM

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