Drama Popular XI: Tribos de praia
Talvez seja do calor ou da tão falada globalização, mas sem dúvida que um dos assuntos do momento que todos evitamos na esperança que desapareça como os castelos na areia, não são os incêndios que matam o país todos os anos, nem as algas tóxicas que invadem as praias... trata-se de algo mais complexo e antropológico, como as tribos de praia.
Já reparou nas pessoas que estão ao seu lado na praia? E já tomou atenção às pequenas conversas delas? Nos diálogos - ou monólogos - que as tornam tão particulares? Cada uma com os seus tópicos específicos e todas à mão de semear... numa toalha perto de si.
As tribos da “tradição ainda é o que era” gostam de falar de tudo o que lhes é próximo... como do filho da dona Emília que “era tão namoradeiro e tão bom rapaz, tinha boas notas, andava bem arranjado, arranjou um bom emprego e estava quase para casar... mas de um dia para o outro, foi viver para o Brasil... sabe-se lá porquê... talvez tivesse apanhado sol a mais, ou então foi uma história de mulherio... como sempre”. É uma tribo interessante, mas pouco dada a descanso... não enquanto não alcançar novos records no uso da palavra... e olhe que se supera todos os dias!
Melhor a fazer: não ter reacção ou contam-lhe a história da vida TODA da Dona Emília... a começar no nascimento... e a senhora já vai nos seus sessenta anos, pelo que terá muitas histórias para contar.
Um pouco mais ou lado, encontra a tribo “pouco amiga do ambiente” que tem apenas uma preocupação: a areia. Não se ria que é sério... facilmente identificada por um pára vento... e uns quantos chapéus de sol deitados, a tribo tem como objectivo tornar a areia um assunto com pano para mangas: “Ai este vento... aposto que vou ficar cheia de areia.. eu até ía lá abaixo, mas depois fico cheia de areia e encho a toalha de areia... o chato de trazer comida para a praia é mesmo a areia... e ninguém gosta de comer areia... que horror... olhe para isto, já viu as minhas pernas? Estão cheias de areia...” e nunca se cansam...
Neste caso, e partindo do princípio que é daquelas pessoas que procura mais assuntos para falar, o melhor a fazer é sair de fininho... mas sem sacudir a toalha... para não encher a tribo de areia... que incomoda.
Há também a tribo “porque é que estamos aqui quando há tanto sítio para ir?”, para quem tudo o que fique para cá da Austrália é subúrbio... e o único assunto, claro está, só pode ser o que viram, o que queriam ver, o que tentaram ver e o que não conseguiram ver nas suas mil viagens (ou só uma... que a tribo procura relatar ao ínfimo pormenor, repetindo até à exaustão)...
O melhor é ser compreensivo, mas... sem se sentar ao lado deles com uma t-shirt de uma bandeira de um país qualquer... são bem capazes de se abraçarem a si a chorar como as pedras da calçada... de saudades...
Um pouco mais atrás, num sítio onde haja pelo menos uma rede das três de telemóveis, é bem capaz de encontrar a chamada tribo “em contacto com o mundo”... agarrada ao telemóvel e, mesmo que em caso de falta de bateria – quase tão grave como a declaração de “Estado de Sítio” por parte das autoridades - depressa se junta a outra tribo para poder conversar e rir alto para toda a gente saber que está ali... e olhe que a tarefa é superada a 100 decibeis por frase.
O melhor será manter-se à margem... é que se por acaso cair na asneira de dizer – ainda que baixinho – que o seu telemóvel tem uma bateria excelente, é bem capaz de ter um novo amigo na sua toalha em fracções de segundos...
Finalmente, a tribo “o ideal seria uma rede, mas assim também dá”. A mais sossegada das areias desse país e que comunica por telepatia... é que não se ouve uma só palavra... só mesmo um ou outro ronco, mas nenhuma tribo é perfeita.
O objectivo é descansar e deixar os outros fazer o mesmo... só tem um defeito: é que com tanta telepatia e tanto espírito zen, o protector acaba por cair por terra – ou ficar no limbo - e a tribo acorda diferente... escaldada... como eu...

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