Drama Popular X: O Circo
Para o Francisco, Francisco, Francisco
Chega-se a Dezembro e é vê-los a multiplicarem-se como cogumelos. Falo, claramente, do circo, que invade a capital e nos tenta tirar do sério com tanta piada pirosa e pobre.
Eu sei que devia dar um certo desconto, pelas crianças, mas é precisamente por elas que escrevo. Elas, que todos os anos insistem na ideia de se auto-torturarem com um espectáculo de desfile de animais, muitas vezes sub nutridos, elas, que todos os anos vivem a esperança de que o número dos palhaços vai ser diferente e não vai ter os truques mais velhos que Alqueva da florzinha que deita água, elas, que mais uma vez insistem nos algodões doces carregados de corantes cancerígenos e nas bandeirinhas de plástico que o senhor das pipocas - que na maior parte das vezes, é também o trapezista e o domador de leões anorécticos - anda para lá a vender com o ar de quem é o homem mais feliz do mundo.
A última vez que me apanharam no circo, foi a acompanhar amigos, cujas irmãs mais novas estavam radiantes com o acontecimento. Mal sabiam elas que o que as esperava era uma espécie de tenda dos horrores: animais drogados, roupas pirosas, palhaços a quem dá vontade de bater, só porque sim, trapezistas alucinados e com pelos nas axilas (se calhar, esse era o número de palhaços e fui eu que não percebi)… graças a Deus, não estava sozinha na tortura e aproveitei para gozar com o ridículo do momento.
Jurei para nunca mais. Entrei atrofiada, saí triste e perdi toda a consideração que tinha por ursos… os verdadeiros, os animais, que julgava eu serem animais que impunham respeito, quando me deparo com uma espécie de gémeo de arrumador de carros na arena, ou lá como aquilo se chama.
Se por fora, uma tenda de circo, dá cor à cidade e ao Natal, por dentro parece morrer de ano para ano… arrastando as famílias para o seu velório, como uma espécie de cruz que toda a gente tem que carregar, só porque há dois séculos atrás, o circo era engraçado.
Uma tristeza!
Acho que nunca fui uma fã do circo, nem mesmo quando era pequena e ainda não raciocinava muito bem, podendo até ter sonhado em ser trapezista só para ter uma saia "tutu" de tule branco. Depois, fui para o ballet, e já com a saia vestida, desisti da ideia de andar para aí armada em saltimbanca, de país em país, a dormir numa roullote, sem grande conforto, e a ter que repetir a mesma coisa, todos os dias… de sorriso na cara, quando me apetece fazer a criancinha engolir o algodão doce que acabou de vomitar para cima de mim…
Lembro-me que, na altura, eu não achava piada ao facto dos leões estarem presos e a levar chicotadas para levantarem as patas, mas, olhando para trás, soltá-los também não seria solução… talvez resolvesse o problema do excesso de população mundial, mas… estragava o momento às crianças e sujava muito.
O grande problema está naqueles vinte minutos que vêm a seguir, que uma buzina à "foga-foga-foga" anuncia: não deve haver nada tão deprimente como os palhaços… quer o rico, que se veste à Pierrot, mesmo que pareça um otário (não consigo arranjar um nome mais indicado), quer o pobre, com a sua t-shirt às riscas que ao fim de tantos anos, se transformou numa peça de roupa unicolor.
O drama, o verdadeiro drama, não são os helicópteros Apache no Iraque, mas sim as vozes completamente estúpidas que os palhaços usam para convencer as crianças que são engraçados… as vozes histéricas que mais não fazem que disfarçar piadas sem graça, mas como as crianças não ouvem, riem… um riso politicamente correcto.
Seria muito mais engraçado juntar a este número, uma espécie de Poço da Morte, da desaparecida Feira Popular, em que ou os palhaços corriam mais que as motas, ou eram desmembrados por elas. Aposto que ía parecer um número muito mais natural que o do carro guiado a pés que não funciona, e que cada vez que a buzina toca, o palhaço rico, inteligente e imprevisivelmente, parte um ovo na cabeça do palhaço pobre.
No entanto, uma vez que continuamos a querer insistir neste imaginário rupestre e passá-lo tardes sem conta na televisão, bem podíamos tentar mudar um pouco… inovar… conceito tão oportuno nos dias de hoje.
Dar uma lufada de ar fresco, apostar em piadas novas e em roupas mais clean & fashion, alimentar os animais, não os vestir como Barbies, depilar axilas, tornando suportável aos pais, e, no fundo, às crianças, o tempo ali gasto.
Seja como for, não me peçam para lá ir. Não vou nem que me paguem… e quando tiver filhos, ofereçam-me bilhetes para o Circo do Mónaco… aposto que consigo fugir e dar um salto ao casino...
PS – Francisco, este ano "’tá safo"!! Embora a proposta da gasolina que te falei, me tenha parecido aliciante. Eu, à entrada da tenda, armada em tocha humana, ía ter muito mais sucesso que três horas daquele espectáculo, aposto!
Eu sei que devia dar um certo desconto, pelas crianças, mas é precisamente por elas que escrevo. Elas, que todos os anos insistem na ideia de se auto-torturarem com um espectáculo de desfile de animais, muitas vezes sub nutridos, elas, que todos os anos vivem a esperança de que o número dos palhaços vai ser diferente e não vai ter os truques mais velhos que Alqueva da florzinha que deita água, elas, que mais uma vez insistem nos algodões doces carregados de corantes cancerígenos e nas bandeirinhas de plástico que o senhor das pipocas - que na maior parte das vezes, é também o trapezista e o domador de leões anorécticos - anda para lá a vender com o ar de quem é o homem mais feliz do mundo.
A última vez que me apanharam no circo, foi a acompanhar amigos, cujas irmãs mais novas estavam radiantes com o acontecimento. Mal sabiam elas que o que as esperava era uma espécie de tenda dos horrores: animais drogados, roupas pirosas, palhaços a quem dá vontade de bater, só porque sim, trapezistas alucinados e com pelos nas axilas (se calhar, esse era o número de palhaços e fui eu que não percebi)… graças a Deus, não estava sozinha na tortura e aproveitei para gozar com o ridículo do momento.
Jurei para nunca mais. Entrei atrofiada, saí triste e perdi toda a consideração que tinha por ursos… os verdadeiros, os animais, que julgava eu serem animais que impunham respeito, quando me deparo com uma espécie de gémeo de arrumador de carros na arena, ou lá como aquilo se chama.
Se por fora, uma tenda de circo, dá cor à cidade e ao Natal, por dentro parece morrer de ano para ano… arrastando as famílias para o seu velório, como uma espécie de cruz que toda a gente tem que carregar, só porque há dois séculos atrás, o circo era engraçado.
Uma tristeza!
Acho que nunca fui uma fã do circo, nem mesmo quando era pequena e ainda não raciocinava muito bem, podendo até ter sonhado em ser trapezista só para ter uma saia "tutu" de tule branco. Depois, fui para o ballet, e já com a saia vestida, desisti da ideia de andar para aí armada em saltimbanca, de país em país, a dormir numa roullote, sem grande conforto, e a ter que repetir a mesma coisa, todos os dias… de sorriso na cara, quando me apetece fazer a criancinha engolir o algodão doce que acabou de vomitar para cima de mim…
Lembro-me que, na altura, eu não achava piada ao facto dos leões estarem presos e a levar chicotadas para levantarem as patas, mas, olhando para trás, soltá-los também não seria solução… talvez resolvesse o problema do excesso de população mundial, mas… estragava o momento às crianças e sujava muito.
O grande problema está naqueles vinte minutos que vêm a seguir, que uma buzina à "foga-foga-foga" anuncia: não deve haver nada tão deprimente como os palhaços… quer o rico, que se veste à Pierrot, mesmo que pareça um otário (não consigo arranjar um nome mais indicado), quer o pobre, com a sua t-shirt às riscas que ao fim de tantos anos, se transformou numa peça de roupa unicolor.
O drama, o verdadeiro drama, não são os helicópteros Apache no Iraque, mas sim as vozes completamente estúpidas que os palhaços usam para convencer as crianças que são engraçados… as vozes histéricas que mais não fazem que disfarçar piadas sem graça, mas como as crianças não ouvem, riem… um riso politicamente correcto.
Seria muito mais engraçado juntar a este número, uma espécie de Poço da Morte, da desaparecida Feira Popular, em que ou os palhaços corriam mais que as motas, ou eram desmembrados por elas. Aposto que ía parecer um número muito mais natural que o do carro guiado a pés que não funciona, e que cada vez que a buzina toca, o palhaço rico, inteligente e imprevisivelmente, parte um ovo na cabeça do palhaço pobre.
No entanto, uma vez que continuamos a querer insistir neste imaginário rupestre e passá-lo tardes sem conta na televisão, bem podíamos tentar mudar um pouco… inovar… conceito tão oportuno nos dias de hoje.
Dar uma lufada de ar fresco, apostar em piadas novas e em roupas mais clean & fashion, alimentar os animais, não os vestir como Barbies, depilar axilas, tornando suportável aos pais, e, no fundo, às crianças, o tempo ali gasto.
Seja como for, não me peçam para lá ir. Não vou nem que me paguem… e quando tiver filhos, ofereçam-me bilhetes para o Circo do Mónaco… aposto que consigo fugir e dar um salto ao casino...
PS – Francisco, este ano "’tá safo"!! Embora a proposta da gasolina que te falei, me tenha parecido aliciante. Eu, à entrada da tenda, armada em tocha humana, ía ter muito mais sucesso que três horas daquele espectáculo, aposto!

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